Lâmpadas acesas - Lucas 12,35-38

Basílica de Lourdes, 21 de outubro de 2014

Fiquem preparados para tudo: estejam com a roupa bem presa com o cinto e conservem as lamparinas acesas. Sejam como os empregados que esperam pelo patrão, que vai voltar da festa de casamento. Logo que ele bate na porta, os empregados vão abrir.
Felizes aqueles empregados que o patrão encontra acordados e preparados! Eu afirmo a vocês que isto é verdade: o próprio patrão se preparará para servi-los, mandará que se sentem à mesa e ele mesmo os servirá. Eles serão felizes se o patrão os encontrar alertas, mesmo que chegue à meia-noite ou até mais tarde.

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO

A Igreja preparou para hoje o Evangelho de São Lucas, porém nos deram apenas os versículos 35 a 38, que falam sobre a questão do empregado. Mas, para entender o
pensamento do Cristo, para entender porque Ele chegou a esse ponto, temos que ler um pouquinho antes, retroceder a alguns capítulos.
Jesus, quando conversava, não perdia a oportunidade de falar alguma coisa que ensinasse aquele povo, e sempre tinha algo de importante. Tanto é que os evangelistas não estavam preocupados em falar da infância de Jesus, mas de centralizar Seus ensinamentos, onde está a chave com a qual desejava abrir a compreensão de todos.
Jesus conhecia a alma humana, e para ensinar usava de coisas que todos conheciam, como o azeite, o óleo, as ovelhas, o trigo, a uva, enfim, aquilo que era comum e usual para as pessoas, e dava vida àquelas coisas, ou seja, dava sentido àquilo que falava. Então começaram a instigá-lo, a provocá-lo.
Jesus disse aos discípulos: “Por isso vos digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Pois a vida é mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa.” É claro que vamos nos preocupar com a comida e com a roupa; mas Jesus estava usando uma figura de retórica, porque naquela época, para a pessoa mostrar que tinha a graça de Deus, vestia-se com roupas bonitas e fazia questão de dar almoços e jantares.
Jesus era convidado para refeições não porque fosse bonzinho, mas porque era costume as pessoas mostrarem à sociedade que estavam na graça de Deus. Ele começou atacando, porque aquelas pessoas faziam isso para se exibirem, como que dizendo: Eu estou com Deus, eu tenho a graça de Deus; você não pode dar um jantar, você não está na graça de Deus! Jesus não gostava disso. Pois para Ele a vida é mais importante do que a comida e o corpo mais do que a roupa.
A vida, da qual Ele está falando, é a vida que temos dentro de nós, aquela satisfação em viver, pois esta graça não está na barriga cheia, ela tem que estar é no espírito cheio de Deus.
É isto que Ele queria dizer.
Ele continuou, dizendo: “Observem os corvos; eles não semeiam, nem colhem, não possuem celeiro nem armazém, mas Deus os alimenta”.
O corvo é aquele pássaro preto que consideravam de mau agouro. Quando aparecia um corvo, eles tinham medo, pois o ligavam à figura do mal, do demônio. Por isso Jesus usou
logo o exemplo do corvo, dizendo que ele não tinha nada, não semeava e Deus lhe dava a vida. Isto instigava os judeus e eles entendiam o que Jesus estava falando.
Por isto Ele ainda disse: “Vocês valem muito mais do que os pássaros! Qual de vocês, com as suas preocupações, pode prolongar por um pouco a duração de sua vida?” Quer dizer: por mais que se preocupem com a vida, ela vai durar somente o tempo que Deus quiser; vocês não vão viver um segundo a mais. Não se preocupem, porque vocês não vão dominar isso. E continuou: “Portanto, se até as coisas assim tão pequenas ultrapassam o poder de vocês, por que preocupam-se com as outras?” Se nos preocupamos com uma coisa tão pequena, como vamos preocupar-nos com as grandes?
Olha que coisa maravilhosa! Jesus refere-se à vida terrena como uma coisa pequena, porque é o mínimo que Deus nos dá, pois o que vem dela, o que vem da maneira como a vivemos é muito maior, e os judeus entenderam isso. Uma vida pode não valer nada, mas, quando ela é repleta de algo que a complete, aí fica valendo alguma coisa. Nós é que vamos dar valor à vida, não é a vida que vai dar valor à gente; o que Jesus quis dizer é isso, e os judeus entenderam.
“Observem como os lírios crescem: eles não fiam, nem tecem.
Porém, eu digo a vocês que nem Salomão, em todo o seu esplendor, jamais se vestiu como um deles.” Salomão, naquela época, era comparado ao lírio. Quando falavam sobre Salomão, diziam assim: Salomão é o lírio de Deus. E Jesus fala assim: Nem Salomão conseguiu se vestir tão bonito como o lírio. Ele mexeu com os judeus de novo, e eles (os judeus) engoliram em seco.
“Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, quanto mais Ele fará por vocês, gente de pouca fé!” Se Deus veste as ervas, vestirá também
vocês, que têm uma fé tão pequena. “Quanto a vocês, não fiquem procurando o que comer e o que beber. Não fiquem inquietos. Porque são os pagãos deste mundo que procuram
tudo isso.” Pagãos são aquelas pessoas que não têm fé, que ficam procurando essas coisas. “O Pai bem sabe que vocês têm necessidade dessas coisas. Portanto, busquem o Reino de
Deus, e Ele dará a vocês essas coisas em acréscimo.” Portanto, põem em primeiro lugar em suas vidas o Reino de Deus, e Deus lhes dará todas essas coisas. Preocupem-se com as coisas de Deus, procurem entender.
Nesse primeiro capítulo, o que Jesus quer dizer é o seguinte: a graça não é a vida, a graça é aquilo que você dá à vida, uma folha tem vida, um boi tem vida, o passarinho tem vida. A vida
que está em nós não é diferente das outras; agora, o que você faz com essa vida, isso aí é graça. O importante é aquilo que você faz com a vida. Depois, Ele continua:
“Meu pequeno rebanho, não tenham medo, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino. Vendam tudo que vocês têm e deem o dinheiro aos pobres.”
Jesus está dizendo para termos disponibilidade para as pessoas, porque se Ele nos deu a vida e estamos tendo a graça de juntarmos coisas e fazermos algo na vida, devemos repartir
essa vida com outras pessoas. Aquilo que Deus nos dá de graça, enchendo a nossa vida de coisas boas, devemos, também, dar de graça. Esses pobres a que Ele se refere são, também, os que não têm essa graça. E então Ele continua:“Façam bolsas que não envelhecem, um tesouro que não perde o seu valor no Céu; lá o ladrão não chega nem a traça rói.” Lógico que ninguém vai mandar riqueza material para o Céu. A gente sabe que Jesus está falando é da graça, da graça que você recebe com a vida.
“De fato, onde está o seu tesouro, aí estará também o seu. Onde estiver aquilo que você pode distribuir com as pessoas, estará o seu coração. Por exemplo: por que insisto tanto em
mostrar-lhes essa beleza do Evangelho? Porque Deus me permitiu que eu fizesse isso. À medida que vou ficando rico dessas coisas tenho que distribuí-las, pois é isto que levarei para o Céu. Aquilo que recebi de graça dou de graça. Se a vida é cheia de graça e você tem condições de saber coisas boas,tem obrigação de distribuí-la; ninguém dá o que não tem.
“Estejam com os rins cingidos e com as lamparinas acesas.” O Evangelho foi todo escrito em grego, e para o grego rim é a palavra que para nós equivale a coração – representam a consciência, aquilo que sai de dentro para fora, os valores que temos dentro de nós.
O grego tinha um costume, ele dizia: você, hoje, está com o rim afetado. Com isso queria dizer: sua consciência não está muito legal, você está com a consciência pesada, você está
com alguma coisa que precisa confessar. Rim era uma figuração que usavam, referindo-se à sede da consciência, é o interior do homem. E o coração era o fio condutor entre os rins
e a consciência. Você fala aquilo que você sente, aquilo que você é. Por isso Jesus usou a palavra rins.
Lamparina acesa – que lamparina é essa? O judeu não precisava, necessariamente, de uma lamparina acesa dentro de casa, porque as casas eram feitas de modo que tinham várias
janelas, e o luar à noite a iluminava. As coisas da Galileia eram diferentes das nossas. O judeu era acostumado com aquela luz da noite que entrava e clareava sua residência. Como as noites lá são frias, eles deixavam a lareira acesa. O judeu, quando tinha que conversar alguma coisa, ele ficava do lado de fora.
Eles usavam as lamparinas para não deixar a fogueira apagar, era uma luz que se tinha ali de reserva. Não eram feitas de azeite de oliveira, mas de uma frutinha que tinha naquela região, que se parece muito com a nossa mamona. Ela produz um azeite muito grosso e gasta pouco. Por isso a lamparina ficava acesa a noite inteira, e se precisassem de fogo tinham ali. Essas lamparinas não ficavam perto das janelas, para que o vento não as apagassem, ficavam mais no interior da casa.
Por que Jesus está falando isso? Ele quis dizer que aquilo que você tem dentro do coração, e que está aceso, que é a sua fé, não a coloque perto da janela, porque qualquer vento pode
apagá-la. O vento é o nosso dia-a-dia, é tudo aquilo que pode nos afastar da fé. Essas lamparinas não são nada mais nada menos do que ficar atento àquilo que passa dentro de você mesmo.
“Sejam como homens que estão esperando o seu senhor voltar da festa de casamento: tão logo ele chega e bate, eles imediatamente vão abrir a porta.” Jesus continua: “ Felizes dos empregados que o senhor encontra acordados quando chega. Eu garanto a vocês: ele mesmo se cingirá, os fará sentar à mesa, e, passando, os servirá.” Qual é o patrão que saiu para o casamento? Jesus não preparou toda aquela aliança? É o casamento de Deus para com a humanidade. E, no Seu retorno, as pessoas que estiverem com a consciência limpa, tranquila, sabendo o que estão fazendo, terão uma coisa que ninguém imagina: terão um Deus a servi-las. Deus nos fez para sermos perfeitos, e um belo dia resolvemos não sermos perfeitos, porque desobedecemos a Deus. Deus não pode ir contra aquilo que Ele programou para ser perfeito, porque Deus quer nos servir. Como Deus quer nos servir? Ele servenos com a vida, serve-nos durante a vida, serve-nos com aquilo que nos ensina e aprendemos, serve-nos pela morte.
Deus serve-nos com tudo aquilo que colocou à nossa disposição, para usarmos em busca da nossa conversão, espiritualização, da nossa purificação e salvação.
Nosso cérebro é um computador que Deus nos dá. Deus nos serve a vida toda, em todo o nosso caminhar. Do nascimento à morte, Deus está a nos servir. Deus não é obrigado a dar nada para ninguém, mas Ele nos dá, porque nos quer na Sua glória.
Essa aliança, esse casamento, que o patrão foi e voltou é nada mais nada menos que Deus querendo nos servir, Ele quer nos dar tudo que precisamos para nossa redenção.
Hoje eu ouvi falar que Deus nos castiga. Deus não castiga ninguém, o que vai acontecer é o seguinte: no retorno de Cristo haverá aquelas pessoas preparadas e pessoas que não estarão preparadas. Mas não é por culpa delas, existem pessoas que não conseguem estar preparadas para isso, porque preparar para receber o Cristo significa conhecer o Cristo; e
conhecer o Cristo não é conhecer a Igreja Católica Apostólica Romana, é conhecer o que é a moral. Jesus não vai voltar só para os católicos! Se Ele retorna para todos é porque Ele volta
para a moral de Deus, para aquela moral que Deus nos propõe, para os princípios de Deus. E Deus vai nos servir em cima daquela moral que Ele falou que deveríamos seguir, e a pessoa que estiver preparada será aprovada mais rápido, mas a outra terá que estudar, terá que aprender, se quiser passar.
É muito mais fácil estar preparado para receber o Cristo dentro daquela moral a fim de que Ele nos sirva, do que ter que aprender tudo aquilo para depois Ele nos servir – é muito diferente. A Eucaristia é isso, a Eucaristia não é uma obrigação, mas uma graça, é a nossa participação no banquete que Deus está nos dando aqui.
Em Lucas 12,22-38, entendemos que Jesus está falando sobre o estado de graça. Jesus quer é o estado de graça; o importante não é a vida, mas aquilo que você dá à vida. Deus o quer servir com você em estado de graça. O Evangelho de hoje é muito simples para ser compreendido. O que Jesus está falando ali é assim: O que você não aprender no estado de graça, você vai aprender depois. A coisa mais difícil é cair no inferno, porque Deus não quer isto para nós, de forma alguma, por isso vamos fazer um esforço maior para seguir a Sua moral, os Seus princípios, e é para isso que Ele nos oferece, a todo momento, as oportunidades para a nossa salvação.

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