Lavar a Alma (Lucas 11,37-41)

Basílica de Lourdes, 15 de outubro de 2013

Naquele tempo, enquanto Jesus falava, um fariseu convidou-o para jantar com ele.
Jesus entrou e pôs-se à mesa. O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tivesse lavado as mãos antes da refeição. O Senhor disse ao fariseu: "Vós, fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades.
Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós".

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO

Jesus foi convidado para um jantar, por um fariseu. Fariseus, naquela época, eram cumpridores da lei, cumpriam-na ao pé da letra. Eles tinham uma preocupação muito grande com os mandamentos da lei, que obrigavam, dentre outras coisas, que as pessoas lavassem as mãos antes de uma refeição, como no jantar em que Jesus participava.
Jesus, propositadamente, sentou-se à mesa sem lavar as mãos, porque queria chamar a atenção das pessoas para determinado ensinamento. O fariseu ficou horrorizado com seu procedimento, questionando como é que Jesus, que se diz um profeta e entendedor de todas as coisas de Deus, senta-se à mesa de jantar sem antes lavar as mãos. É claro que Jesus desejaria lavar as mãos, porém, agiu daquela forma para provocar o fariseu. Jesus não gostava dessas coisas criadas, articuladas, que escravizavam, porque, internamente, a pessoa, muitas vezes, faz o ato sem a perfeição de intenção e sentimentos, simplesmente para cumprir a lei. Jesus sabia disso e enfrenta o fariseu ao afirmar ser insensatez lavar por fora e deixar sujo por dentro.
Todos nós somos fariseus, temos uma preocupação enorme em lavar as coisas por fora, e, às vezes, o nosso coração está emperrado, está sujo de coisas com as quais tropeçamos em nosso dia-a-dia. Isto faz doer o Coração de Jesus.
Certa vez, começaram a me atacar para que eu me manifestasse quanto à maneira de se receber a Eucaristia: somente na boca ou poderia ser recebida também na mão. Aqueles fariseus começaram a me falar assim: “Mas você não se define?”. Eu acabei perguntando a Nossa Senhora, e ela me disse: “Quantas mãos limpas e bocas sujas, quantas mãos sujas e bocas limpas”, e chamou-os de hipócritas. Ela estava se reportando a esse momento no qual Jesus se sentou à mesa de um fariseu e mostrou a ele que, muitas vezes, nós deixamos a nossa casa limpinha para mostrar às pessoas, mas o nosso coração está falando outra coisa.
Jesus quer e exige que a primeira coisa seja aquele movimento do nosso coração. Muitas vezes nós não temos uma casa boa. Muitas vezes nós não temos um jeito de fazer as coisas. E, muitas vezes, nós temos tanta coisa e não fazemos. Nossa consciência grita para que possamos entender ou fazer algo, entretanto, damos desculpas e justificamos: “Ah, hoje, eu não posso, porque tenho um compromisso…”. Quer dizer, está lavando o copo e o prato pelo lado de fora. Se diz católico apostólico romano, frequenta momentos de oração, faz o que a Igreja quer, mas, naquele momento em que Deus exige uma argumentação lógica no espírito, a pessoa arruma uma desculpa. Todo mundo cai. Quem é que não cai nesta lógica que nós estamos enfrentando no mundo inteiro? Muitas vezes uma pessoa torna-se famosa por algo que fez, mas nem sempre é reconhecida por aquilo que – acertadamente – não fez. Então, a nossa lógica não tem aqueles copos e pratos muito limpos por dentro. E Jesus quer se sentar à mesa.
Há uma música que diz: “faremos refeição nós dois”. Nós devemos fazer refeição com Jesus, e a primeira coisa que Ele vai examinar é se os copos e os pratos estão sendo lavados por dentro. Jesus lê os nossos corações e permite e propõe uma faxina do espírito. O que vale é aquilo que Jesus está comandando. Nossa Senhora, a Imaculada, assim se manteve pela aceitação dos sofrimentos, por aceitar os comandos de Deus.
Me perguntaram, certa vez, qual é a função do meu pescoço. O meu pescoço serve para segurar a minha cabeça e abaixá-la quando for necessário. Nós temos que nos acostumar a lavar os nossos copos, os nossos serviços, primeiramente por dentro, começando a acreditar que Deus está morando no interior de cada um de nós, naquele vizinho, vizinha, naquela pessoa que está sentada ao nosso lado na igreja…
É uma limpeza de espírito que Deus nos impõe. Primeiro, lavar as coisas por dentro; depois, por fora. Porque a lavagem externa não leva ninguém ao Céu. O Céu é a aceitação da vontade de Deus, é a união com Deus, é o cumprimento exato do que Ele quer para cada um de nós. E o que Deus está querendo? Ele está querendo que nós sejamos felizes. Ele está nos dando uma lógica de espírito. Deus quer que sejamos sinceros, não preguemos mentira, não sejamos “políticos”. Não façamos deste mundo uma lógica que não podemos sustentar, com a qual não podemos fazer refeição. Vamos nos alimentar, vamos lavar a lógica do espírito, para que a lógica terrena, a lógica do dia-a-dia, seja sempre para nós um caminho seguro.

(Explicação do Evangelho por Raymundo Lopes, realizada na Basílica de Lourdes em 11-10-2011)

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