Cronicas de Raymundo Lopes
A Caminho do Presépio

Raymundo Lopes - 20 de dezembro de 2016

A Caminho do Presépio

Estávamos no carro a caminho da Basílica de Lourdes. Eu levava três meninos para o Terço. Chamemos os meus companheiros de Gabriel, Raphael e Uriel. Cada qual levava consigo um de seus pertences para pôr no presépio da Basílica. Os três falavam sobre qual estava fazendo a vontade do 'menino'.
"Já estou grande demais para brincar com isso", declarou Gabriel, afagando com carinho um leão surrado, cujo único olho pendurava-se por um fio, mas mesmo assim ele é um presente valioso.
"Mas o leão está velho, olha só a juba dele", riu-se como um anjo piedoso.
"Eu trouxe meu melhor boi". Acrescentou, porém, com honestidade:"Mas prefiro mesmo o outro sem pintura".
"Eu vou dar minha águia", disse Uriel em voz alta. "Não tem cauda, claro, mas é feita de borracha muito boa". Para provar suas palavras, fez a águia saltar de uma mão para a outra.
Assim levando essas versões do ouro, incenso e mirra, subimos depressa a escada da Basílica grande e sombria.
Um padre movimentava-se de um lado para outro, recebendo os presentes e colocando-os aos pés de Yeshua.
Algumas pessoas ficaram olhando, enquanto seus brinquedos eram levados pelos braços do padre.
Outros depositavam-nos sobre o presépio e viravam-se logo. Pensei se estariam lamentando o gesto nobre ou sentiriam que a virtude tinha de pagar um preço alto demais.
Virei-me para Gabriel, Raphael e Uriel com um sorriso confiante, mas este gelou nos meus lábios.
Em vez de expressões ansiosas e braços estendidos, vi três estátuas com olhares inexpressivos, e as coisas tinham desaparecido.
Claro, adivinhei onde se encontravam.
Na roupa de Gabriel tinha um bolo com formato de boi, uma saliência da roupa de Raphael parecia muito uma águia, e Uriel tinha no bolso, sem dúvida, um anjo.
Não havia nada a dizer.
Um presente tem de ser entregue de coração, ser dado de todo.
Os meninos foram seguindo pelo corredor, com os presentes que não haviam sido entregues. Eu os acompanhei até o banco de frente, e dali a pouco os paroquianos juntaram-se ao coro das crianças que falavam:
Eu disse ao boi peludo e castanho
Carreguei a mãe dele morro acima e morro abaixo
Levei-a sã e salva à cidade de Belém.
Eu disse ao boi peludo e castanho
Dei-lhe minha manjedoura para deitar
Dei o meu feno para forrar sua cabeça.

Raymundo Lopes

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