Cronicas de Raymundo Lopes
Apocalipse

20 de Junho de 2017

Apocalipse

Quem já teve a oportunidade de ler por completo o Apocalipse deve ter percebido uma grande diferença entre os evangelhos.
Enquanto o Apocalipse tem momentos um tanto quanto violentos com restos de coisas incompreensíveis, os outros, centrados na trajetória de Yeshua, possuem um conteúdo bem mais suave por assim dizer. A exceção ocorre justamente com o Apocalipse, aquele famoso despertar de sentimentos conflitantes nos leitores, como medo e admiração.
O termo Apocalipse, em seu significado original, quer dizer revelação. Ali está descrito nada menos do que a grande batalha que estaria por vir entre as forças do bem e do mal, conflito do qual nem todos na terra escaparão.
Sempre ansiosa por saber do seu futuro, é óbvio que a humanidade nunca conseguiu permanecer alheia a esses impressionantes versículos.
O livro do Apocalipse é creditado a João de Patmos, do qual se sabe muito pouco a respeito; erroneamente acreditou-se por muito tempo que o autor seria João, um dos doze apóstolos que esteve em contato direto com Yeshua. Inclusive há quem sustente a hipótese de que suas enigmáticas páginas tenham sido escritas por mais de uma pessoa.
A data mais provável da obra é a última década do século I depois de Yeshua.
O cristianismo dava os primeiros passos e já era um incômodo para os planos do Império Romano, ou seja, o texto foi redigido em meio a um cenário de provocações e incertezas.
João viveu nesse período de forte perseguição, em que Roma estava crucificando e matando os cristãos.
Ao mesmo tempo é o período da erupção do Vesúvio, que ficava perto da cidade de Pompeia.
Foi uma grande tragédia que escureceu boa parte do Mediterrâneo, inclusive a ilha onde João estava, e causou a morte de milhares de pessoas.
É nessa atmosfera que surge o Apocalipse, um conjunto de cartas que João escreveu para os primeiros cristãos, dizendo: Aguentem firmes, porque o fim dos tempos está próximo e nós vamos sair vitoriosos.
As visões que João relata teriam sido reveladas a ele pela figura de um anjo.
“Eu fui arrebatado no Espírito, e ouvi detrás de mim uma grande voz que dizia – Sou o Alfa e o Ômega, e o que vês escreve-o num livro e envia-o às sete Igrejas que estão na Ásia: a Éfeso, Esmirna e a Pérgamo, a Tiatira e a Sardes, a Filadélfia e a Laodiceia.”
Após algumas mensagens destinadas às sete maiores cidades da Ásia Menor de então, começaram as visões fantásticas. João vislumbra então a Corte Celestial, composta por Deus sentado em um trono central, rodeado por outros 24 tronos menores ocupados por Anciãos.
Um leão, um bezerro, um homem e uma águia prestavam reverência a Deus. Ao seu lado há um livro que somente Deus poderia tocar ou mesmo olhar.
São abertos então os sete selos do livro, que representam os juízos a serem lançados por Deus sobre a Terra. O primeiro deles é o Anticristo, que surge em um cavalo Branco e atende pelo nome de Conquista.
É sucedido por Guerra em vermelho, Fome o preto e Morte em amarelo. Juntos, formam os Cavalheiros do Apocalipse. O quinto selo é o pedido de vingança por parte dos mártires, em que Deus solicita paciência.
No sexto está a previsão da ira divina contra Roma, enquanto o sétimo é marcado por um silêncio que antecede o toque das sete trombetas.
A cada toque das trombetas uma calamidade se abate sobre a Terra, são desgraças como chuva de granizo e de fogo, uma montanha em chamas que destrói um terço do mar, uma estrela ardente que cai do céu, escuridão e pragas de gafanhotos.
Em seguida surge a imagem de uma mulher prestes a dar à luz, e um dragão à espera da criança. A fera é combatida por Miguel, que salva o bebê arrebatado aos Céus.
Satanás é expulso do Céu e com ele leva um terço dos anjos.
À mulher resta peregrinar fugindo da perseguição.
Eis que surge então um monstro assustador, era semelhante a um leopardo, seus pés como os de urso e sua boca como a de um leão.
A horrenda criatura recebe a marca de seus adoradores com o símbolo 666.
Em seguida Yeshua é quem chega montado em um cavalo branco, e de sua boca saía uma aguda espada.
O inimigo é então aprisionado para assim permanecer por mil anos.
Por mais que o Apocalipse seja considerado um livro sagrado, fica a pergunta:
Seus dizeres devem ser interpretados ao pé da letra?
O conteúdo do livro, no capítulo 20, embasou uma forma de pensar chamada de milenarismo1. Seus adeptos apoiavam-se justamente no trecho a respeito do reino dos mil anos de Yeshua na Terra, período em que o demônio reuniria forças nos bastidores para atacar novamente antes de ser vencido de uma vez por todas com o Reino Celeste, após o Juízo Final.
A discursão do Apocalipse começa comigo, ao afirmar que seus dizeres não deveriam ser interpretados ao pé da letra, pois muitas das passagens do livro não são claras e mesclam expressões literais com outras em sentido figurado, e elas não apresentam propriamente uma estrutura linear, com as mesmas coisas repetidas de forma diferente em outros pontos do texto.
Meu raciocínio foi completado no que optei por não dar um tratamento histórico à mensagem, preferindo enxergá-la como símbolos dos conflitos morais dentro de cada pessoa e da Igreja como um todo. Em uma manhã de páscoa, me foi dado compreender o verdadeiro significado dos textos de João de Patmos. Após todas as idas e vindas, os textos do Apocalipse são vistos de maneira contraditória, de um lado uma embasada crítica literária, ao mesmo tempo a grande massa de leitores em geral são meros curiosos.
Os fundamentalistas garantem ao livro uma dimensão que ele nunca teve antes.
Em um livro que durante milhares de anos instiga o coração, desperta a alma e não deixa nem amigo nem inimigo indiferentes e dificilmente tem um amigo ou inimigo comedido; em tal livro deve haver algo de substancial.
Digam o que disserem.
Como se vê, a controvérsia é a alma do negócio.

Raymundo Lopes

1. Milenarismo – ideia fundamental: A noção crítica de milenarismo, como entendido por escritores cristãos, podem ser expostos como segue: no fim dos tempos, Cristo irá retornar em todo o seu esplendor para reunir todos os justos, para aniquilar os poderes hostis e estabelecer um glorioso reino na terra para o gozo das maiores bênçãos espirituais e materiais; Ele reinará como rei, e todos os justos, incluindo os santos chamados à vida, vão participar. No encerramento deste reino dos santos vão entrar no Céu com Cristo, enquanto os ímpios, que irão também ser ressuscitados, serão condenados ao castigo eterno. A duração deste glorioso reino de Cristo e Seus santos na terra é muitas vezes considerado um milhar de anos. É por isso que é comumente conhecido como "Millennium", enquanto a crença na futura realização do reino é chamado de "milenarismo".
No entanto, este prazo de mil anos é de nenhuma maneira um elemento essencial do milênio, como concebido pelos seus adeptos. O escopo, detalhes de implementação, as condições, em vez disso, o milênio foram descritos de várias maneiras. Os seguintes pontos são essenciais:
o regresso antecipado de Cristo em todo o Seu poder e glória,
o estabelecimento de um reino terrestre com os justos,
a ressurreição dos santos mortos e sua participação no reinado glorioso,
a destruição dos poderes hostis a Deus e
no fim do reino, a ressurreição geral com o julgamento final, após o qual os justos vão entrar no Céu, enquanto os ímpios serão enviados para o fogo eterno do Inferno.

Raymundo Lopes


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