Cronicas de Raymundo Lopes
Eu não sou digno

Raymundo Lopes - 30 de agosto de 2016

Eu não sou digno

Yeshua ainda não tinha nascido, e só de ouvir a mãe dele, no encontro com Isabel, estremeceu, porque ia nascer aquele que batizaria seu primo.
Foi para o deserto, vindo Deus sabe de onde, e vestia um pedaço de pele de camelo e comia gafanhotos e clamava, porque os caminhos deviam ser endireitados para a chegada do Senhor.
E os homens perguntavam-lhe o que deviam fazer, e ele ensinava.
Degolaram-no, porém, porque sua boca pregava contra os escândalos, costumes; e dizem que circulou sua cabeça numa bandeja entre uma humanidade histérica de um velho festim.

Raça de víboras, teria ele dito.

Pagãos e cristãos viram prodígios na sua data, que ficou sendo a mesma do solstício, isto é, quando o Sol parece imóvel fazendo o dia maior daquele lado.
E vieram as festas de fogo e luz, fogueiras no chão e os homens pisavam no fogo sem se queimar, se estavam sem pecado, e puderam ver sob uma luz mágica tudo que ainda está por acontecer.
E vieram as festas de água, porque a água era o veículo do seu poder, e os rios e as fontes levaram as impurezas humanas, e os destinos apareceram escritos nas ondas.
Coisas estranhíssimas foram vistas por toda parte, as plantas ficavam bentas e cheias de virtudes, os animais falaram, os homens se comunicaram com o mistério e o que estava encantado desencantou-se.

Tudo é possível na noite de São João.

Entre videntes e magos os homens podem nessa noite organizar a família dos seus sonhos, casar, adotar filhos, irmãos, compadres, toda a casta de parentes, tudo pela lei de São João.

São João dormiu, São Pedro acordou,
tu ficas sendo meu marido,
que São João mandou.
Mas estava São João dormindo?

Dizem que estava deitado no Céu com seu carneirinho branco, como uma nuvem enrolada em seus pés, e nem ouve sua festa cá embaixo.
Mas esse é o João das lapinhas, das capelinhas de melão, dos cravos, das rosas e do manjericão?
Outro continua a clamar pelos desertos, a endireitar os caminhas de Deus, a dizer para a Igreja - Raça de víboras! - mas a murmurar para os santos: Eu não sou digno de desatar as correias dos vossos sapatos.

Raymundo Lopes

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