Cronicas de Raymundo Lopes
Adeus

Raymundo Lopes - 17 de outubro de 2016

Adeus

Foi num dia, durante os primeiros meses, que a escutei pela primeira vez. Eu estava no quarto dormindo, e quando fui à sala, ela lá estava envolta em nuvens. Quando parei para deixá-la falar lembranças de minha infância, começaram a ressurgir: um balanço de câmara-de-ar, longas fitas de seda no cabelo de minha vovó-bi, algodão-de-açúcar de Sá Donana, balas puxa-puxa de mamãe. Foi um momento sublime.
Na madrugada da terça-feira tornei a escutá-la e sonhando vê-la de pé, quando o dia começava a surgir.
Depois disso eu a via sempre. Tinha longos cabelos e usava uma túnica branca. Nunca vi claramente seu rosto, estava sempre com muito brilho.
Quem era ela?
Porque a via com muita frequência, procurei aproximar-me dela; mas, quando chegava, ela se afastava.
Sempre voltava, porém, ficava esperando eu falar. Mas aproximou-se a data de seu afastamento, eu tinha pouco tempo para pensar no Daniel calado que esperava, porque eu não sabia.
Chegou afinal o dia, com sua agitação e tensão e um toque de tristeza. Durante o dia todo eu tinha estado correndo de um lado para outro, procurando conservar as lembranças dos últimos anos e de quem ia separar-me.
Quando saí ao seu encontro, parecia estar faltando alguma coisa, percebi que não a veria mais e naquele dia, de repente, me senti muito solitário.
Os anos passaram-se depressa.
Quando nos viramos para o adeus central, a fim de retirar-me desfilando meus anos, olhei para a Igreja e vi-lhe o rosto procurando.
Lá estava ela sentada junto à Sá Donana, e vi pela primeira vez. Naquele breve momento, compreendi quem era ela e por que estava ali. Uma tristeza irresistível se apoderou de mim. Aquilo era a encruzilhada da vida, ela viera para dizer-me adeus.
Talvez eu a visse ainda em algum lugar do Céu, bem diferente; mas nunca seria como se fora na terra. Nossos anos, passando, estavam terminando.
Eu teria de continuar sem ela.
Ao sair pela porta da vida, olharei pela última vez.
Ela havia partido, eu sabia que era assim.

Raymundo Lopes

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