Cronicas de Raymundo Lopes
Banal

Raymundo Lopes - 30 de agosto de 2016

Banal

Há uma crescente tendência de pôr à parte as grandes banalidades que regem os nossos dias, uma crescente falta de apreciação das experiências na rotina da vida diária.
Registro a crença no poder satisfatório da simples luz do dia, dos prazeres comuns e em todas as relações habituais da vida cotidiana. A felicidade de um homem é menos o resultado de grandes dons da sorte, que raramente vêm, do que mil pequenas alegrias de cada dia.
Os sentimentos cotidianos que dão cor à nossa vida: laços familiares, amigos, livros, flores, comida, água, o vento, saúde, abrigo, sono, os caminhos, a chuva no verão, o fogo no inverno, a alvorada, as canções, o céu estrelado, o amor na juventude e a recordação na velhice.

Não são estas imensas banalidades a própria essência da vida?

O mundo só é banal quando o olhamos de um modo banal; o menor objeto conterá algo inesperado se lhe dedicarmos atenção consciente e observação. Interpretar e glorificar o lugar comum deveria ser assim uma das nossas principais ocupações.
A maioria de nós conhece alguma pessoa que pode tornar interessantes até mesmo as primeiras palavras de qualquer conversa, seja ela apenas a respeito da chuva ou do bom tempo.
Outra tem oportunidade de lhe escrever um bilhete que você prezará durante anos, uma terceira tem um jeito de lhe dar uma frivolidade que fará você estimá-la dez vezes mais e colocá-la na lista das lembranças, e uma outra, apontando para um livro numa parede úmida, contar-lhe a coisa mais interessante que você já ouviu nos últimos tempos.
É uma observação batida, mas muito importante, que pensamento profundo é apenas pensamento prolongado para o qual nossas ocupações cotidianas servem de alimento essencial.
Temos de abster-nos de nos isolar. Nada contribui tanto para manter o nosso senso, como viver a maneira universal com os seres humanos à nossa volta.
O homem que tem algum conhecimento de coisas comuns está mais bem equipado para enfrentar o mundo do que outro com ligeiras noções de assuntos incomuns.
Há pouco descobri que numa reunião heterogênea, ou mesmo entre as pessoas do SIM, eu era muito menos elástico na conversação, muito menos afiado na réplica, muito menos ligeiro em pegar o assunto do que muitas pessoas sem leitura, que nunca tinham viajado, vivido em ambiente expressivo.
É uma grande lição descobrir que podemos ter uma vida bastante intensa, se conseguirmos enriquecer os momentos cotidianos da existência.

Raymundo Lopes

 

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